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id da página: 8177 Gregório Magno Pastoral Gregório Magno

Gregório Magno Pastoral

Gregório Magno — DA VOCAÇÃO PARA O OFÍCIO PASTORAL


Tradução de C. Folch Gomes de excertos do Livro da Regra Pastoral, cap. 1-2: P.L. 77, 14-16

Não se deve ter a pretensão de ensinar uma arte antes de havê-la aprendido com esmerada aplicação. Quanta temeridade, pois a dos ignorantes que pretendem o magistério pastoral, o governo das almas, que é a arte das artes? Ignora alguém serem as chagas da alma ainda mais ocultas que as das entranhas? E, no entanto, quantos os que, sem haver aprendido as regras e preceitos do espírito, não titubeiam em dizer-se médicos do coração; ao passo que se envergonharia de ser chamado médico do corpo quem não conhecesse as virtudes dos medicamentos.

Come, pela graça de Deus, já dobraram a cerviz todas as eminências do mundo atual ante a augusta grandeza da religião, muitos há que, a pretexto de governar a alma, se introduzem na Igreja para conquistar honrarias, fazem-se passar por mestres, lutam por colocar-se acima dos outros e enfim, como diz a eterna Verdade, nos banquetes e as cadeiras principais nas sinagogas": estes tais são tanto menos dignos de desempenhar o ministério pastoral que receberam, quanto foi pela soberba que alcançaram este magistério de humildade. Pois é natural que no exercício do magistério a língua se confunda quando ensina uma coisa que não aprendeu. O Senhor mesmo queixa-se deles, através do profeta, quando diz: “eles reinaram, mas não por mim foram príncipes, e eu não os reconheci". Governam, pois, por própria conta e não por disposição do Supremo Governante de todas as coisas, os que, sem o abono da virtude, sem vocação divina, mas levados apenas pela cobiça, escalaram, mais que obtiveram, o cume do governo espiritual. A esses tais o Juiz das consciências, ao mesmo tempo que os exalta, os desconhece; pois, se os suporta, seguramente os desconhece, reprovando-os em seus divinos juízos. Foi assim que, a alguns que somente o seguiram para presenciar seus milagres, chegou a dizer: "Afastai-vos de mim, artífices da maldade, não vos conheço! " E é a voz da eterna Verdade que fustiga a ignorância dos pastores, ao dizer através do profeta: "os pastores mesmos são falhes de inteligência" ou: "os depositários da Lei desconheceram-me". Tudo isso vem demonstrar que a Suprema Verdade se queixa de ser desconhecida por eles, declarando ao mesmo tempo desconhecer a dignidade dos que a desconhecem. E é justo que o Senhor desconheça os que ignoraram as coisas do Senhor, segundo a afirmação de Paulo: "aquele que o desconhece será desconhecido".

Esta mesma ignorância dos Pastores corre às vezes em paralelo com o merecimento dos fiéis que lhes estão submetidos; por mais que careçam aqueles, culpavelmente, da luz da ciência, é, no entanto, lógico que os que os seguem tropecem por causa da sua ignorância. Porque, como declara a Suprema Verdade, no Evangelho: "quando um cego guia a outro cego, caem ambos juntos na cova". — E afirma o salmista, não movido por própria inspiração, mas pela força de sua missão de profeta: "escureçam-se seus olhos para que não vejam, e estejam suas espáduas sempre encurvadas". — É aos olhos que, colocados na parte mais nobre do rosto, compete o ofício de guiar nossos passos; e em relação aos olhos, todos os que veem caminhando atrás podem bem ser chamados espáduas. Quando se anuviam ou escurecem os olhos, dobram-se as espáduas; o que vale dizer: quando os que governam perdem a luz da ciência, aqueles que, como súditos, os seguem, se tornam encurvados levando o fardo de seus pecados.

Muitos há que esquadrinham com afinco as regras da vida espiritual, mas ao mesmo tempo aviltam pelos costumes o que com a inteligência aprenderam; ensinam o que adquiriram com o estudo, nãc pela conduta; e assim, o que pregam com a palavra destroem com seu modo de vida. Disto resulta que, caminhando o Pastor por sendas escarpadas, traz ao abismo o rebanho que o segue. Queixa-se o Senhor, pela boca do profeta, dessa desprezível ciência dos pastores, dizendo: "Depois de beberdes em águas límpidas, turvas-tes com vossos pés as que sobraram; e minhas ovelhas tiveram de se apascentar do que vós havíeis pisoteado, tiveram de beber a água que ccm vossos pés turvastes".

Bebem água cristalina os Pastores que vão buscá-la e sorvê-la nas torrentes da eterna Verdade; quando, porém, corrompem com sua má vida o fruto de suas santas meditações, turvam essa mesma água com os pés. E dessa água turva bebem as ovelhas, se não seguem cs ensinamentos que ouvem, mas imitam os depravados exemplos que contemplam. Pois, sedentas de verdade, de um lado, mas pervertidas pelo espetáculo das más obras, de outro, é como se bebessem lodo em fontes corrompidas.

Por isso está escrito no profeta: "Os maus sacerdotes são laços de perdição para meu povo". E de novo fala o Senhor, dos sacerdotes pelo mesmo Oseias: "Converteram-se em pedra de escândalo para a casa de Israel". Pois ninguém é tão pernicioso para a Igreja como aquele que, revestido com o nome e a ordem de santidade, age perversamente. Ninguém se atreve a repreender um pecador assim, e seus próprios pecados convertem-se lego em matéria de exemplo, quando por reverência à dignidade sacerdotal se passa a tratar com respeito ac pecador. Evitariam esses indignos pastores fazer-se réus de tão graves delitos se ponderassem no coração as palavras da suprema Verdade: "Quem escandalizar a algum desses pequeninos que crêem em mim, melhor seria que lhe amarrassem ao pescoço a pedra do moinho e assim o submergissem nas profundezas do mar". A pedra de moinho significa aqui as preocupações e os enredos da vida mundana; e as profundezas do mar são uma alusão à condenação eterna. Aqueles, pois, que levando a libré de santidade, conduzem os outros à perdição, por suas palavras ou exemplos, melhor seria para eles que fossem arrastados para a morte eterna com seus próprios pecadcs sob o hábito secular, do que apresentar-se aos demais revestidos de caráter sagrado, propondo-lhes à imitação sua vida desregrada; pois, se somente eles caíssem no inferno, ao menos sofreriam penas mais suportáveis.

O que acabamos de expor visa demonstrar quão grave seja o peso do governo das almas, a fim de que não ousem assumi-lo os que não forem aptos para isso. Tornar-se-ia causa de própria perdição o que se procurasse por avidez de honraria. Assim, diz são Tiago: "Não queirais, muitos dentre vós, fazer-vos mestres, irmãos meus". E o próprio Mediador entre Deus e os homens não quis possuir um reino na terra, ele, que ultrapassando em ciência e inteligência as hierarquias angélicas mais sublimes, é rei dos céus desde antes dos séculos. Consta na Sagrada Escritura que, "sabendo Jesus que viriam para levá-lo e fazê-lo rei, fugiu sozinho outra vez para o monte". Quem poderia com mais razão desejar governar os homens, do que ele que os havia criado? Mas, tende-se encarnado não apenas para remir-nos por sua Paixão e sim também para ensinar-nos com seus exemplos, quis dar-nos aqui um modelo, desdenhando ser rei e sofrendo, ao contrário, de modo voluntário, o martírio da cruz, recusando os esplendores que se lhe ofereciam, e abraçando as dores de uma morte ignominiosa, para que seus discípulos aprendessem a menosprezar as glórias do mundo, a não temer cs opróbrios humanos, a renunciar aos eventuais afagos da vida. Estes últimos geralmente corrompem o coração mediante o orgulho, ao passo que os opróbrios purificam mediante a dor, elevam a alma, obrigam o homem a esquecer-se a si mesmo, não a voltar-se para si. As comodidades acabam por destruir as boas obras, os opróbrios ajudam a desentranhar os defeitos mais inveterados. Não é raro ver-se que o coração se amolda à disciplina na escola da adversidade, e ao contrário se deixa levar à soberba em meio aos esplendores das honrarias, que acompanham os encargos de governo. Assim, vemos Saul, que inicialmente se dizia indigno da glória, depois, colocado à frente do reino, mudou e, ambicionando os aplausos populares e a ostentação, separou-se de quem o havia ungido rei. Também Davi, antes submisso em todos os seus atos à vontade do Criador, mal se viu livre da tribulação, tornou-se cruel a ponto de fazer matar o marido de Betsabé, deixou de ser clemente como antes, chegando a realizar a matança de um inocente. Antes, renunciara a vingar-se de seu perseguidor, preso entre suas mãos, e depois, ei-lo que manda matar o mais leal de seus soldados, além de prejudicar o exército com as fadigas da guerra. Seguramente tais pecados o teriam apagado dentre o número dos eleitos não fora o arrependimento com que chorou suas desgraças.